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No Piloto Automático: Como o estresse e a pressão por resultados imediatos estão matando a criatividade e transformando profissionais em zumbis corporativos

Postado em: 29/09/2014
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Na sua empresa, você tem tempo para criar, inovar e pensar em planejamento e estratégia, ou trabalha no piloto automático, apenas apagando incêndio e respondendo às infindáveis mensagens que parecem se multiplicar na sua caixa de e-mails? Os constantes cortes de custos nas folhas de pagamentos e a cobrança pelo urgente (que nem sempre é o mais importante!) estão criando uma verdadeira legião de zumbis corporativos, termo empregado pela revista Você RH para designar os profissionais que vivem bitolados e, sem tempo para pensar, tocam o dia a dia com o piloto automático ligado.

De forma geral, esta situação se prolifera em razão da existência de uma rotina negativa dentro das empresas, que inclui a falta de planejamento e transparência, muitas pessoas envolvidas no processo de decisão, mudanças constantes de direção, excesso de reuniões, relatórios e de burocracia interna, processos mal elaborados, lentidão na rede de computadores e falta de clareza sobre onde a empresa almeja chegar. Some a tudo isso equipes enxutas (e sobrecarregadas) e a pressão por resultados financeiros imediatos cada vez maiores e… voilà, a receita para um cenário corporativo sem criatividade e inovação está pronta para degustação.

Como toda receita de bolo mal feita, esta também costuma causar dor de barriga e indigestão. Com o tempo, os funcionários imersos nessa rotina dentro da empresa costumam apresentar, entre vários sintomas, estresse, fadiga, desânimo, ataques de ansiedade, problemas de memória e cansaço constante, que levam a outros problemas mais graves, como o surgimento de doenças crônicas, o aumento de acidentes de trabalho e até mesmo uma tendência à incorporação de comportamentos antiéticos, afinal, “preciso entregar o resultado a qualquer preço, custe o que custar”.

Depressão, insônia e venda de calmantes em crescimento
Quando olhamos para os indicadores de saúde do Brasil, é fácil perceber a dimensão e os impactos do estresse no ambiente de trabalho. Segundo dados de 2013 do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a depressão e outros transtornos ansiosos figuram entre as quatro principais causas mais frequentes de afastamento de trabalho. Somente a depressão foi responsável por 61.044 afastamentos.

Outro indicador que reforça o impacto negativo do estresse no ambiente de trabalho está no volume de venda de calmantes, que cresceu 42% no Brasil, nos últimos cinco anos. De acordo com levantamento da consultoria IMS Health (encomendado pela Folha de S.Paulo), entre 2009 e 2013, o número de caixas de tranquilizantes da classe dos benzodiazepínicos (como Rivotril, Valium e Lexotan) saltou de 12 milhões para 17 milhões. Muito utilizado por pessoas com dificuldade para dormir, estes medicamentos causam dependência e têm efeitos colaterais sérios, como falhas de memória. Apesar de não haver estudos sobre o perfil dos usuários desta classe de medicamentos no Brasil, a advogada e autora do livro “Síndrome do Pânico e Trabalho” tem a percepção de que o uso dos tranquilizantes tenha se “alastrado entre os executivos”. “De casos gravíssimos a incapacitantes, atendi mais de 30 pessoas”, disse à Folha. Quando olhamos para o cenário geral, fica claro que muitos profissionais acabam consumindo psicotrópicos com venda restrita como se fosse bala e criam uma dependência química maléfica à saúde, como fuga para as situações de estresse que vivenciam no dia a dia. Um sinal de que as coisas vão muito mal…

A falta de sono é outro sintoma grave. Atualmente os executivos exercem uma jornada de trabalho média de 13 horas, o que representa um aumento de 3 horas em comparação aos dados de 2010 compilados pela International Stress Management Association (Isma-BR). Resultado? Muitos não conseguem desligar e repousar a cabeça no travesseiro à noite. De acordo com a clínica Med-Rio, especializada em check-ups de executivos, 25% sofrem de insônia, um crescimento de 40% nos últimos 10 anos. Os efeitos da falta de sono são terríveis para o organismo: começam com irritação, enfraquecimento do sistema imunológico, diminuição dos reflexos e da capacidade cognitiva (o que interfere diretamente na tomada de decisão) e podem resultar em doenças como câncer, diabetes, hipertensão e doenças coronarianas.

Para as empresas, o resultado também é bastante negativo. Segundo um estudo conduzido pela Universidade de Harvard, a fadiga e sua consequente relação com a improdutividade faz com que as companhias norte-americanas cheguem a perder até US$ 63,2 bilhões por ano. Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Indiana descobriram, por exemplo, que os adultos dormem em média 20% menos do que o aconselhado. Como resultado, já chegam no trabalho, pela manhã, cansados, com a sensação de que mal saíram do escritório. Como costumamos dizer, o funcionário trabalha só com o “corpo presente”. Esta improdutividade é tão acentuada que equivale a 11 dias de falta do funcionário no período de 1 ano.

Raio x do profissional no mercado de trabalho
Alguns dados ajudam a explicar a dimensão do problema no mercado de trabalho. Segundo informações do “The Energy Project”, divulgadas pela Você RH:
– 75% dos profissionais passam a maior parte do tempo apagando incêndios no trabalho, em vez de focar atividades com resultados de longo prazo
– 68% têm dificuldade para se concentrar nas tarefas e são facilmente distraídos durante o dia, principalmente por e-mails
– 58% se sentem irritados, impacientes ou ansiosos no trabalho, principalmente quando a demanda aumenta
– 57% dormem menos de 7 horas e já acordam cansados
– 60% ficam conectados 13 horas e meia ou mais por dia
– 56% não fazem pausas regulares durante o dia para recarregar a energia

Menos estresse e mais criatividade
Não à toa, o salário já não reina mais soberano entre os fatores que fazem um profissional optar por um emprego. Várias pesquisas indicam que cada vez mais, o salário perde espaço para outros quesitos, tais como ambiente positivo, criatividade, senso de propósito e missão, todos eles, diga-se de passagem, associados aos preceitos da espiritualidade aplicada ao ambiente de trabalho.

Uma pesquisa recente da consultoria EY (antiga Ernest & Young) revelou, por exemplo, que os brasileiros estão valorizando cada vez mais empresas com clima de trabalho menos estressante e com “energia positiva”. O estudo “Securing top talent in the Brics” ouviu 1.100 profissionais e foi realizada, como o próprio título sugere, nos países pertencentes ao grupo dos Brics. Apesar das distâncias geográficas e culturais, os resultados apurados entre os participantes de Brasil, Rússia, Índia e China foram bem parecidos. Os russos preferem um local amigável para se trabalhar. Os indianos optam por empresas com ambiente criativo e os chineses por empresas com ambiente confortável.

Fica então a questão: o que fazer para mudar o cenário e engajar os funcionários? Além de apostar em um ambiente com relacionamentos mais sadios e no empoderamento dos funcionários, um dos caminhos certeiros é abrir espaço para a criatividade!

É o que mostra outro estudo conduzido pela CreativeLive. Após ouvir cerca de 2 mil adultos (1.120 deles empregados) nos EUA, o estudo “Creative Jobs Report” descobriu que 36% dos participantes gostariam de trocar hoje seu atual emprego por um local onde pudessem exercer sua criatividade, uma evidência do descompasso existente atualmente entre trabalho e criatividade. Entre os “millenials” (18 a 34 anos de idade), 47% afirmam querer distância do que classificam como “corporate America”, ou seja, o trabalho convencional com plano de carreira e carteira assinada em grandes companhias. Este pensamento não é exclusivo da nova geração. Entre os profissionais seniores ouvidos, 57% concordam que é importante ter uma carreira que permita exercer a criatividade de maneira regular, 35% não se aposentaram ainda porque afirmam gostar do que fazem e 18% pretendem fazer algo mais criativo depois da aposentadoria.

Sem medo de errar
O estudo aponta uma tendência em movimento de queda do prestígio do emprego tradicional e do crescimento do empreendedorismo, na outra ponta. Basta olhar para a quantidade de “startups” que surgiram nos últimos anos e no crescente número de jovens engajados em desenvolver aplicativos, softwares, serviços e soluções inovadoras que revolucionem o mercado, assim como aconteceu com Facebook, WhatsApp, Twitter, Pinterest e outras companhias de sucesso. Segundo o estudo, cerca de 41 milhões de norte-americanos estariam dispostos a ganhar menos, desde que pudessem exercer sua criatividade no local de trabalho. Trata-se de uma nova ordem no mundo trabalho.

Os gestores precisam mudar o mindset e parar de enxergar os funcionários como simples máquinas de cumprir prazos e bater metas cada vez mais inatingíveis. Precisam delegar e, principalmente, confiar! É imprescindível que os líderes tenham maturidade e estimulem um ambiente permeado pela confiança e pela atribuição clara de responsabilidades. É preciso apostar na autonomia, de forma com que os funcionários percam o medo de expor ideias, opiniões e, principalmente, não tenham medo de errar. Atentas às novas tendências, algumas empresas já incorporaram em suas rotinas a realização de fóruns permanentes de discussão abertos à participação voluntária dos funcionários, onde é possível opinar e contribuir com ideias de melhorias para novos processos e lançamentos de produtos ou serviços. Além de propiciar interação entre funcionários de diferentes áreas, ao ouvir (de verdade!) aquilo que o público interno tem a dizer, agregam novos pontos de vista a uma situação pretensamente já conhecida, abrem caminho para a inovação e ganham agilidade no desenvolvimento de novos produtos que, em uma situação tradicional, demandariam longo tempo e grandes investimentos em pesquisas de opinião.

A inovação só se conquista com tempo disponível para pensar, liberdade para fazer, conhecimento compartilhado e a coragem de assumir riscos e aprender com os inevitáveis tombos que acontecerão no meio do caminho. É assim que aprendemos a andar.

Autor: Fernando Ferragino



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